Entre Caatinga e Cânions: Uma Jornada no Tempo Geológico
O Rio São Francisco, carinhosamente chamado de Velho Chico, serpenteia por um dos cenários mais dramáticos do Brasil: o Cânion do Xingó. Com paredões de até 170 metros de altura esculpidos em rochas que datam de mais de 600 milhões de anos, esta formação entre os estados de Alagoas e Sergipe guarda muito mais que beleza natural – esconde narrativas culturais tão profundas quanto suas gargantas.
Piranhas: O Berço do Cangaço e do Barro que Conta Histórias
Na cidade histórica de Piranhas, patrimônio nacional desde 2006, o artesanato local fala através das mãos de mestres como Dona Maria do Barro. Suas peças, modeladas com argila retirada das margens do rio, reproduzem cenas do cotidiano sertanejo e figuras lendárias como Lampião e Maria Bonita, ícones do cangaço que deixaram marcas na região. "Cada vaso carrega um pedaço da nossa resistência", afirma a artesã, enquanto mostra técnicas transmitidas por gerações.
Nas Águas do Velho Chico: Mitos Indígenas e a Fé Ribeirinha
Passeios de catamarã pelo cânion revelam não apenas formações rochosas com nomes poéticos – como a "Pedra do Japonês" e o "Galo de Campina" – mas também histórias dos povos Xingó e Kariri-Xocó, que habitavam a região antes da construção da Usina Hidrelétrica de Xingó na década de 1990. Guias locais narram lendas sobre a Mãe d'Água, entidade protetora das águas, enquanto pescadores mostram técnicas tradicionais de pesca com tarrafas.
Gastronomia Sertaneja: Sabores que Desafiam a Aridez
Em restaurantes flutuantes e pousadas rústicas, pratos como carne de sol com macaxeira, peixes do São Francisco assados na folha de bananeira e o doce de leite de cabra contam outra faceta desta cultura adaptativa. O Festival do Bode, realizado anualmente em Canindé de São Francisco, celebra justamente essa culinária de resistência, atraindo chefs e foodies em busca de autenticidade.
Um Patrimônio que Precisa de Voz
Apesar da riqueza cultural, comunidades ribeirinhas enfrentam desafios desde a implantação da hidrelétrica. Projetos como o Museu do Sertão em Piranhas e iniciativas de turismo comunitário buscam preservar memórias enquanto geram renda. "Viajar pelo Xingó é mergulhar numa geografia humana", reflete o antropólogo Carlos Eduardo Santos, pesquisador da cultura sertaneja. "Cada curva do rio, cada rocha, tem uma história esperando para ser ouvida."




