Cultura

Caminhos de Sal e Pedra: A Rota do Cânion do Xingó Revela a Alma do Sertão Nordestino

Nevura
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23 de dezembro de 2025 às 06:11
Caminhos de Sal e Pedra: A Rota do Cânion do Xingó Revela a Alma do Sertão Nordestino
Do artesanato em barro de Piranhas às lendas indígenas do Velho Chico, expedição cultural desvenda histórias esculpidas em rochas de 600 milhões de anos no interior de Alagoas e Sergipe.

Entre Caatinga e Cânions: Uma Jornada no Tempo Geológico

O Rio São Francisco, carinhosamente chamado de Velho Chico, serpenteia por um dos cenários mais dramáticos do Brasil: o Cânion do Xingó. Com paredões de até 170 metros de altura esculpidos em rochas que datam de mais de 600 milhões de anos, esta formação entre os estados de Alagoas e Sergipe guarda muito mais que beleza natural – esconde narrativas culturais tão profundas quanto suas gargantas.

Piranhas: O Berço do Cangaço e do Barro que Conta Histórias

Na cidade histórica de Piranhas, patrimônio nacional desde 2006, o artesanato local fala através das mãos de mestres como Dona Maria do Barro. Suas peças, modeladas com argila retirada das margens do rio, reproduzem cenas do cotidiano sertanejo e figuras lendárias como Lampião e Maria Bonita, ícones do cangaço que deixaram marcas na região. "Cada vaso carrega um pedaço da nossa resistência", afirma a artesã, enquanto mostra técnicas transmitidas por gerações.

Nas Águas do Velho Chico: Mitos Indígenas e a Fé Ribeirinha

Passeios de catamarã pelo cânion revelam não apenas formações rochosas com nomes poéticos – como a "Pedra do Japonês" e o "Galo de Campina" – mas também histórias dos povos Xingó e Kariri-Xocó, que habitavam a região antes da construção da Usina Hidrelétrica de Xingó na década de 1990. Guias locais narram lendas sobre a Mãe d'Água, entidade protetora das águas, enquanto pescadores mostram técnicas tradicionais de pesca com tarrafas.

Gastronomia Sertaneja: Sabores que Desafiam a Aridez

Em restaurantes flutuantes e pousadas rústicas, pratos como carne de sol com macaxeira, peixes do São Francisco assados na folha de bananeira e o doce de leite de cabra contam outra faceta desta cultura adaptativa. O Festival do Bode, realizado anualmente em Canindé de São Francisco, celebra justamente essa culinária de resistência, atraindo chefs e foodies em busca de autenticidade.

Um Patrimônio que Precisa de Voz

Apesar da riqueza cultural, comunidades ribeirinhas enfrentam desafios desde a implantação da hidrelétrica. Projetos como o Museu do Sertão em Piranhas e iniciativas de turismo comunitário buscam preservar memórias enquanto geram renda. "Viajar pelo Xingó é mergulhar numa geografia humana", reflete o antropólogo Carlos Eduardo Santos, pesquisador da cultura sertaneja. "Cada curva do rio, cada rocha, tem uma história esperando para ser ouvida."

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